quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Modelo dos Modelos

 
Palomar é o nome de um famoso observatório astronômico que durante muito tempo ostentou o maior telescópio do mundo. Por intencional ironia, é também o nome do protagonista de textos curtos de Ítalo Calvino, pois este senhor Palomar é todo olhos, mas funciona quase sempre como se fosse um telescópio ao contrário, voltado não para a amplidão do espaço, mas para as coisas próximas do cotidiano. É como se ele nos dissesse que as grandes questões do mundo e da existência também estão presentes em cada objeto que observamos, em cada cena que presenciamos, e que tudo é digno de ser interrogado e pensado. Palomar foi o último livro publicado em vida por Ítalo Calvino. Recebeu o Prêmio Jabuti 1993 de Melhor Produção Editorial de Obra em Coleção.

Diz o romance no capítulo “O Modelo dos modelos”, que em uma época de sua vida Palomar tentou construir em sua mente o modelo mais lógico e geométrico possível, com o objetivo aplicá-lo à realidade. A partir daí fez correções para que realidade e modelo coincidissem. Esse, segundo ele, seria o procedimento correto, o mesmo que é usado por físicos e astrônomos.

Ítalo Calvino é um autor que pensa a literatura como um espaço em que diversos campos se cruzam, levando seus leitores a refletirem sobre separações estanques que a nossa tradição escolar opera e impõe, como, principalmente, entre ciência e arte. Retoma-se aqui a noção clássica, que perdura até a modernidade, de que o conhecimento científico pressupõe a aplicação de procedimentos e teorias que garantem (ou pretendem garantir) a sua validade, garantia que se fundamenta nas ideias de demonstração, descrição e corrigibilidade (ABBAGNANO, 2000).

A diversidade e o infinito no mundo das experiências deveriam ser encarados como convites sempre abertos de aprendizagem e esta precisa ser  encarada como um processo ao mesmo tempo contínuo, aberto, inacabado.

A construção de um modelo era...para ele[Palomar] um milagre de equilíbrio entre os princípios (deixados à sombra) e a experiência (inapreensível), mas o resultado deveria possuir uma consistência muito mais sólida...O modelo é, por definição, aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com perfeição; ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona. Em suma, se o modelo não consegue transformar a realidade, a realidade deveria conseguir transformar o modelo...

Na educação estamos acostumados a buscar e esperar “modelos” e receitas para trabalhar com os alunos sem levar, muitas vezes, em consideração as inúmeras e variadas especificidades de cada sujeito. A escola precisa romper com a dependência de estruturas pré-estabelecidas e ampliar a capacidade de criação de novas propostas de aprendizagem que qualifiquem e garantam a aprendizagem e o desenvolvimento de todos os alunos. Os alunos com necessidades especiais precisam ser reconhecidos como sujeitos com capacidades e ser reconhecidos em suas limitações, fazendo com que o diálogo entre essa essência seja o fio condutor de propostas de aprendizagem. Ao elaborar o Plano de AEE para cada aluno, é preciso conhecer as reais necessidades a serem trabalhadas e estimuladas buscando nos modelos que já conhecemos e já avaliamos o impulso criador para novas proposições. Cada aluno é único e todo professor deverá ser o “autor” de cada proposta de trabalho. 




 

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